OS LOUCOS


Toda cidade tem seus "doidos", personagens folclóricos que, brabos ou mansos, simpáticos ou esquisitos, fazem parte do cotidiano da comunidade.

Gostaria de registrar alguns que trago na minha memória, do meu tempo de criança.

A que mais me marcou foi Satatonha Bolachinha. Magra, andava falando sozinha pelas ruas, virava-se numa capota choca quando alguém gritava seu apelido – e a molecada adorava fazer isso – era pedrada de todo tamanho.
Satatonha tinha uma filha, que adorava arrancar dinheiro do Padre Zuzinha. Todas as vezes que chegava na casa paroquial ou na sacristia, dava a sua tradicional "facada" no padre, que, a princípio, dizia que não tinha dinheiro. Então ela usava um argumento infalível: "Se o senhor não me der dinheiro, eu vou pro cabaré". Era tiro e queda; o padre se desesperava e terminava dando um trocado a ela.

Outro que me metia medo era Antero. Sempre de capote escuro mal-encarado, vivia entre as ruas dos Pacas e Siqueira Campos. Diziam que ele tinha ficado louco por estudar muito.

"Vaca Braba" morava pras bandas da Rua do Rio, e era desbocada que só ela. Bebia uma cachaça de lascar. Mas tinha uma filha linda, que era minha paixão infantil – embora eu nunca tenha tido coragem de falar com ela.

"Sinuca", com seu jeito esquisito de andar, sempre puxando um carro de lata, fazia parte da galeria dos "doidos simpáticos"; não fazia mal a ninguém, vivia num mundo só dele.

"Nenem Miolo" (foto) era metido a brabo, vivia com um cacetete na mão e virava uma fera quando os moleques o apelidavam. Da família do Dr. Cloves Pacas, diziam que ele se confiava no famoso advogado e o que ele tinha era ruindade, nada de loucura.

"Cuíca", e sua barriga enorme, bebia uma cachaça empurrada. Fizeram uma malvadeza danada com ele; foi preciso amputar um dos braços (ou os dois, não lembro). Eu sentia muita pena dele.
"Caco", ou "Curicaco" ou "Caco de Torrar Bufa", super simpática, só vivia maquiada, andava balançando exageradamente sua enorme bunda, e cantando a música que a identificava: "Ai, munhé, munhé, munhé!"

Outra de quem eu ouvia falar, quando criança, embora não guarde em minha lembrança sua imagem, era Maria-do-Pezinho. Sei que tinha uma deficiência no pé, que lhe valeu a alcunha.
Mas me lembro perfeitamente de João de Bibiu, uma figura pitoresca e fantasmagórica, que saía juntando tudo que encontrava pelo lixo e que achava que podia ser usado, e pendurava pela roupa. Ele era alcólatra e morreu afogado em uma cacimba do Rio Capibaribe.

Havia também “Soldado”, também conhecido por “Meu” ou “Mijão”, vivia sempre bêbado e mijado, mas não fazia mal a ninguém.

Outro inofensivo era “Cajuína”, que vivia sempre entre a Rua 13 de Maio e a José Francelino Aragão, nas imediações do Club Treze de Maio, de memoráveis festas.

Lembro também do casal João e Befa. Sempre estavam juntos; a figura dele não me vem muito à memória, senão que era um homem alto e magro, mas lembro perfeitamente dela, pequena, cabelos desgrenhados, cara vermelha e lábios rachados.

São muitos, que vão aparecendo assim, na vida da cidade, sem que se saiba exatamente de onde surgiram, sua idade, se têm família ou os motivos que os levaram àquela situação. São párias sociais, lixo humano, jogados pelas calçadas e sarjetas, insultados pelos moleques, ignorados pelos adultos – nada representam, para que alguém se lembre de registrar-lhes a infeliz existência.

Por Edson Tavares

Por Emanoel Glicério |

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