FESTA DE SÃO MIGUEL


A “Festa de Setembro” sempre foi um espaço de confraternização, de roupa nova, de sapato apertado, de carrosséis (patinhas, carrinhos, cavalinhos, rodas gigantes – a característica de círculo que os identifica era constante causadora de enjôos e vômitos homéricos das crianças).

Começava a partir da Casa Paroquial a chamada “parte profana”, com os parques de diversão, as bancas de jogo (roleta, tiro ao alvo, bingo) e as comidas (grande recordação do cachorro-quente cheiroso, da maçã-do-amor, do algodão-doce, dos confeitos e guloseimas diversas). E se estendia até o final da rua Grande (atual Av. Padre Zuzinha, mas que na época – como já falei aqui – chamava-se Dr. Manoel Borba até o Posto de João Pereira, Dr. José Bezerra a partir daí até o cruzeiro, e Praça Tiradentes na frente da Escola da Professora Maria Lúcia Alves), onde se erguia a Palhoça de Lear, que foi incendiada por fanáticos induzidos pelas pregações moralistas de Frei Damião de Bozzano (nunca esqueço dessa noite, pelo temor que vi estampado no rosto do meu pai, procurando um lugar seguro para pôr a família a salvo, todos correndo em polvorosa, sem saber direito o que estava acontecendo...)

Depois da missa, a rua começava a se encher de gente, os rapazes se enxerindo para as meninas, e estas, entre afoitas e recatadas (dependendo de quem as abordava) provocavam situações constrangedoras quando davam “foras” caprichados nos mais metidos, ou quando aceitavam ficar a noite toda em companhia de um garoto da turma; de qualquer forma, era certo o constrangimento, pelo deboche do restante da turma, gerado pela “zoação” ou pelo despeito, respectivamente.

As retretas da Banda Musical Novo Século eram um espetáculo à parte. Toda a meninada – e os adultos também – rodeavam o velho coreto de madeira em que a banda se apresentava. Eu tinha uma admiração danada por ver tanto o velho Zuza Balbino, todo empolgado em seu instrumento – era o mais idoso do grupo – quanto alguns meninos que já despontavam como músicos...

Os “noiteiros” era uma competição interessante. Cada escola tinha a sua noite, e todas se esmeravam para tornar a missa mais bonita; éramos obrigados, os alunos, a comparecer à igreja, fardados (maior “mico”, sair depois na rua da festa, com a farda da escola), para acompanhar o ato litúrgico. Mas o interesse maior era pelos “grandes noiteiros”, os ricos do lugar, que se esforçavam na decoração do templo e no tamanho da girândola – era o comentário de toda a noite, de quem tinha sido o foguetório maior ou quem tinha colocado mais flores na matriz.

O meu lugar preferido nas festas, menino solitário que sempre fui, não era com as turminhas; fanático por rádio e música, gastava bom tempo da noite “peruando” a cabine de som, em que os locutores apresentavam os programas “ao vivo”. Eu chegava a auxiliar, guardando nas capas os LPs e compactos tocados e às vezes até escolhendo as músicas a serem executadas. Enquanto o som enchia a rua, eu lia cada detalhe da capa do disco, na maior felicidade, já que eu não tinha, em casa, aquele “luxo”. Ainda hoje, muitas das músicas que povoam minha memória foram aprendidas nos estúdios de parque de diversão da Festa de São Miguel.

Aqui, minha homenagem a dois locutores daqueles tempos, e que ainda vivem (de vez em quando os encontro em Caruaru): “Canarinho” (era locutor de festa, depois dono de barraca de bingo e também fez rádio) e Maciel, ainda hoje animador de pequenos eventos, na Capital do Agreste. Lembro que, certa vez, já nos meus vinte anos, em que Maciel me ouviu lendo um texto ao microfone, disse que eu tinha uma boa voz mas faltava dicção – sorri, comigo mesmo do equivocado julgamento: era (e é até hoje) justamente o contrário, considero que tenho boa dicção mas minha voz de “taboca-rachada” é um caos.

Em setembro acontecia também, numa das noites da festa, a Primeira Comunhão das crianças preparadas pela catequista Dona Neusa, cujos salientes óculos fundo-de-garrafa e a voz extremamente arrastada nos enchiam de medo, respeito e sono (depois a eucaristia das crianças passou para dezembro). Lembro de uma vez que meu primo saiu com a roupa branca, pelo meio da festa, e, não sei como nem por quê, colocou um ovo de galinha no bolso da calça; só foi o tempo de os moleques descobrirem a presepada, que não teve apelo: bateram na perna dele, quebrando o ovo, e o coitado ficou o resto da noite com a calça branca manchada com uma lista amarela, de cima a baixo, sem falar no fedor que exalava...

Lembro dos esforços que eram feitos pela gente da igreja, para tentar fazer com que as festividades do padroeiro tivessem tanta projeção quanto a de setembro. Muita gente se espantava quando descobria que o padroeiro da paróquia não era São Miguel, mas o Bom Jesus dos Aflitos, cuja festa era comemorada em dezembro, sem um tico sequer do brilhantismo da do Arcanjo, que era apenas o “Protetor” da paróquia (ainda hoje acho que deram esse título a São Miguel para justificar a festança). Mas nada adiantou: a festa de setembro pegou, e a tradição popular foi mais forte que os decretos eclesiásticos.

Mas a lembrança mais antiga que tenho registrada na mente de menino é a casa do meu avô (feito Manuel Bandeira), que ficava ao lado da igreja matriz (depois o Dr. Alexandre Gusmão comprou-a – e mais algumas – para expandir sua residência). Nas noites de festa, meu avô paterno, José Firmino, vinha do Sítio Situação, onde morava, e ficava na casa, por onde os parentes sempre passavam para cumprimentá-lo: era um ponto de encontro da família. Ainda hoje trago na lembrança as vozes, os cheiros, os encontros daquele tempo. Ecos do passado que reboam na minha memória e que ainda me causam um sentimento estranho, de saudade, de tristeza, de “nunca-mais”...

Por Edson Tavares

Por Emanoel Glicério |

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