Raimundo Aragão (de roupa clara) inspecionando obra no seu governo.

Continuamos “ouvindo” Raimundo Francelino Aragão, em entrevista concedida ao Jornal Capibaribe, 23 anos atrás. Até agora, ele falou da luta pela emancipação.

Criado o município, foi nomeado o Tenente Teófanes Ferraz Torres Filho, para conduzir os destinos de Santa Cruz, até a eleição do primeiro prefeito, Raimundo Aragão, empossado em dezembro de 1955, e que continua contando a história:

“Foi muito difícil. É como a gente gostava de dizer, estávamos aqui desbravando. Foi uma coisa séria mesmo. Logo, João Deodato, Lourival Moraes e outros vereadores ficaram contra mim, porque eu não satisfiz a vontade deles – eles queriam que eu fizesse coisas que não era possível. Eles ficaram contra mim e eu fiz a administração contra a Câmara de Vereadores.

“Na época era governador Cordeiro de Farias. Eu falei a ele sobre o problema daqui. Ele disse: ‘Faça tudo, não dê importância, porque quanto eu era governador do Rio Grande do Sul, a Câmara era contra mim, mas eu fiz tudo. Faça tudo direitinho, escritura tudo em três vias e não tenha medo.

“Foi quanto ficou contra mim Tabosa de Almeida, para satisfazer os caprichos de João Deodato, Duda Barbosa e outros. E meu rompimento com Tabosa vem mais por causa do Ginásio Municipal. Eu mandei chamar o Padre Zezé [José Aragão Araújo] no Rio de Janeiro, porque eu sabia que o sonho do Padre Zezé era fundar um colégio aqui em Santa Cruz. Os vereadores foram a Tabosa de Almeida dizer que o padre vinha era para fazer política.

“Aí Tabosa mandou me chamar. Disse: ‘Me diga uma coisa, você vai fundar lá um colégio?’ Eu digo: ‘Vou!’ Ele disse: ‘Você sabe quanto trabalho vai dar esse colégio?’ Eu disse: ‘Mais ou menos.’ Isso porque meu sonho aqui em Santa Cruz sempre foi criar um colégio e uma agência de banco. Bom, aí Tabosa perguntou: ‘Eu soube que você mandou chamar o salafrário – eu nunca me esqueço dessa palavra – o salafrário do Padre Zezé no Rio de Janeiro, para ser o diretor?’ Eu respondi: ‘Mandei. E ele não é salafrário, não! Ele é um homem de bem!’ Ele disse: ‘Você, ou manda ele embora de lá em três dias, ou eu rompo com você e fico com Deodato e os outros!’ Eu dei um murro tão grande no birô dele que ainda hoje esta junta me dói [mostra o nódulo de um dos dedos da mão direita], e disse: ‘Se o senhor estiver pensando dessa maneira, pode se danar junto com eles. Mas eu não mando o padre embora, não!’ Saí do escritório de Tabosa e até hoje nunca mais falei com ele.

“A Câmara de Vereadores ficou contra mim. Era João Deodato, Duda Barbosa, Lourival Moraes, Severino Balbino e João Moraes contra, e eu apenas com quatro vereadores do meu lado. Mesmo assim, comprei esse terreno todinho aqui de Santa Cruz, onde foi construída a cidade, comprei à viúva de Luiz Alves. Foi quanto Tabosa de Almeida começou a escrever contra mim e o governador Cordeiro de Farias me chamou e, depois que eu contei o problema, ele me deu seu apoio, como já falei.

“No segundo mandato [1964-1968], fiz, com uma pequena ajuda do Estado, aquela casa de parto [hoje Hospital Municipal Raimundo Francelino Aragão], administrei a construção do Grupo Escolar Luiz Alves da Silva, o Grupo Escolar José Francelino Aragão, fiz o prédio da prefeitura, onde tinha de tudo, tinha local para a Câmara, serviço de abastecimento d’água [esta é a razão da cisterna até hoje existente], delegacia, coletoria federal. Depois, o Padre Zuzinha assumiu e transformou o prédio no Colégio 31 de Março [hoje Escola Padre Zuzinha], porque o objetivo dele era derrotar o que os outros fizeram. Fiz o colégio do Pará e mais uma escolinha pequena, lá no Pará também, com uma pequena ajuda do Estado, que ajudou também na construção da uma escola em Poço Fundo. Botei luz em Poço Fundo e no Pará, primeiro a motor, depois, no governo de Paulo Guerra, consegui botar luz de Paulo Afonso.”

Embora politicamente adversário do Padre José Pereira de Assunção (Pe. Zuzinha), seu relacionamento pessoal com ele era dos melhores. Vizinhos e compadres (o padre era padrinho de sua filha Socorro), “quanto ele adoecia, quem tratava dele era minha mulher, que ajeitava, fazia chá pra ele. Eu sempre me dei muito bem com ele. Nunca deixei de falar com ele.”

Falando, agora, sobre a criação do Banco do Brasil em Santa Cruz do Capibaribe:

“O Banco do Brasil daqui quem se esforçou foi o deputado José Inácio, que Santa Cruz, naquela época, não comportava uma agência bancária ainda. Então, para instalar a agência, o fiscal exigiu uma casa. Comprei a casa a Joel Moraes, mas ele achou estreita. Eu tinha uma loja vizinha, em sociedade com Severino Cavalcanti [ex-deputado federal, ex-presidente da Câmara dos Deputados] – a casa era dele –, propus-lhe que cedêssemos a casa, ao que ele respondeu que assim a gente ia acabar com a loja.”

Raimundo, então, argumentou com Zito, como era conhecido por aqui o ex-deputado, que a loja poderia ser colocada em outra casa, ao que Cavalcanti retrucou dizendo ser pequena. Mas, ante a insistência do prefeito em não perder a agência para Taquaritinga, concordou em mudar a loja. Depois, Severino Cavalcanti candidatou-se a deputado, e Raimundo foi franco com o sócio, dizendo que seu apoio já era de José Inácio, por conta do que este fizera por Santa Cruz. Zito não criou caso, mas houve um estremecimento no relacionamento dos dois doravante, não sabe Raimundo se por conta do apoio político negado ou do episódio da loja.

E o Banco do Brasil foi instalado nas seguintes condições: “O Banco não pagaria aluguel. Iria fazer uma reforma no prédio, mas quanto este entregasse, a prefeitura não teria nenhuma dívida para com o Banco.” Depois, o BB construiu sua sede própria, onde está até hoje, e o Padre Zuzinha, como Raimundo já falou, transferiu a prefeitura para o prédio que servira ao Banco, e onde funciona até hoje o Palácio Municipal Braz de Lira.

Sobre a morte de Raimundo, assim escreveu Lindolfo de Lisboa, biógrafo do ex-prefeito: “Raimundo Aragão estava enfermo. Cardíaco e quase cego, vivia cercado dos familiares e sob a constância assistência do filho médico, Aragãozinho. (...) Raimundo ficou viúvo [em 1988], (...) agravaram-se seus males físicos. A tristeza, visivelmente, estampava-se em seu rosto sombrio de quem ficou sozinho. (...) Aurora do dia 23 de junho de 1990. em casa de seu genro, José Cordeiro da Silva, Raimundo Aragão, no leito, (...) [está] agonizante. (...) O sepultamento foi programado para as dezessete horas, a apenas doze horas do desenlace [atendendo a pedido seu de não ser demorado o velório]. (...) Era véspera de São João. As comemorações prosseguiram nos clubes e no arraial do povão [conforme também pedido de Raimundo, que não queria que fosse cancelada nenhuma festividade por conta de sua morte].

Por Edson Tavares

Por Emanoel Glicério |

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