Um dos momentos mais marcantes de minha vida de jornalista amador foi a entrevista que realizei com Raimundo Francelino Aragão, em junho de 1986, para o Jornal Capibaribe, em que falamos sobre diversos aspectos ligados à emancipação política de Santa Cruz do Capibaribe, da qual ele foi um dos nomes mais importantes, tendo sido, inclusive, o primeiro prefeito eleito de nosso município. Apresento, aqui, os trechos mais marcantes da matéria.

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À época da reportagem, “seu” Raimundo contava 75 anos de idade (nascera em 1911). Faleceria 4 anos depois, em junho de 1990. Era filho de José Francelino Aragão e Raimundo Maria Aragão, foi casado por mais de cinqüenta anos com Petronila Moraes Aragão, teve nove filhos, e, naquele ano (1986), tinha 18 netos e quatro bisnetos.

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De família pobre, Raimundo começou com uma pequena mercearia, tendo trabalhado depois com caminhão durante 26 anos, veículo que comprou com muitas dificuldades, sem, no entanto, ter pago nenhum título atrasado, com fez questão de orgulhosamente afirmar.

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Presente em todos os momentos das lutas pela emancipação política de Santa Cruz, em relação a Taquaritinga do Norte, Raimundo Francelino Aragão é, no dizer do Prof. Lindolfo de Lisboa, o “astro-rei do firmamento político santa-cruzense, sol que durante mais de setenta anos iluminou a gleba do Capibaribe.”

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Ouçamos o próprio Raimundo Aragão falando sobre a luta pela emancipação:

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“A luta pela emancipação começou em 1929, quanto se preparou aqui um memorial para a Câmara dos Deputados naquela época, hoje Assembléia Legislativa, memorial feito pelo advogado Bezerra Leite. Esta campanha foi encabeçada por Luiz Alves da Silva, José Moraes da Silva, Manuel Teodoro Aragão e Antonio Alves Aragão (todos já falecidos), e eu. Participei não apenas desta, mas de todas as lutas. Nessa época, o governador era Estácio Coimbra. A Câmara dos Deputados não votou o projeto e este foi derrotado por decurso de prazo.

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“Em 1935, depois da Revolução [que depôs o Presidente da República Washington Luís, impediu a posse do presidente eleito Júlio Prestes e pôs fim à República Velha], iniciamos um novo movimento – o Estado Novo nos dava esse direito – arranjando quinhentos eleitores em Santa Cruz, no território que pretendíamos formar o município. Foi quanto veio o golpe [de Getúlio Vargas] de 11 de novembro de 1937, desapareceu tudo novamente, porque o golpe acabou com a Câmara, acabou com tudo. Em 1938, veio a lei que permitia as localidades como Santa Cruz se tornar município, exigindo-se apenas que tivesse duzentas casas de moradia na sede da vila que pretendia se tornar município.

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“Mandamos o memorial ao interventor Agamenon Magalhães, que o mandou para a Comissão de Divisão Administrativa, da qual era presidente Mário Melo, o maior inimigo de Santa Cruz do Capibaribe naquela época [enfatiza Raimundo], ele era o técnico que fazia a divisão territorial e administrativa do Estado. Ele deu o parecer contrário.

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“Passou. Lá vem 1943. Pleiteamos novamente e de novo Mário foi contra. Perdemos. Em 1948, já havia Assembléia Legislativa, pleiteamos novamente. Foi quanto apresentou o projeto o deputado Dr. Tabosa de Almeida. Na época, ficou contra, aqui em Santa Cruz, contra a emancipação política: Manoel Rufino de Melo – o pai do atual prefeito [à época da entrevista, Augustinho Rufino de Melo], Manoel Caboclo e João Pereira Sobrinho, que foram a Severino Arruda, então prefeito de Taquaritinga, exigindo dele que fechasse questão contra a criação do município, como me informou pessoalmente Severino Arruda, que era contra porque era uma exigência desses amigos dele.

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“Então o dep. Osvaldo Lima Filho, que era o líder da bancada, fechou questão contra Santa Cruz. Tabosa de Almeida, por mais esforços que fizesse – e ele fez um esforço tremendo – juntamente com Carlos Rios, Laércio Sampaio e outros deputados da UDN naquela época, não passou o projeto.

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“Em 1953, fizemos nova investida. Essa gente toda que estava contra já estava de acordo, porque o governador Etelvino Lins chamou eles e disse que queria fazer o município de Santa Cruz e o de Toritama, quer eles quisessem ou não. Foi quanto finalmente foi criado o município. Era 29 de dezembro. A verdadeira história é esta!

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“Em todas as tentativas eu estava presente, eu ainda menino, rapazinho. Por sinal, nessa época, quanto fizeram a coleta (em 1929), eu fui um dos tais que dei cem mil réis. Eu estava pra casar e meu futuro sogro, José Moraes, reclamou, disse que eu não podia dar, que eu não tinha condições de dar cem mil réis. Mas eu tinha, porque naquele tempo eu plantava algodão no meu roçado, vendi o algodão e paguei.”

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Na segunda parte desta matéria, “ouviremos” Raimundo Aragão falar sobre os primeiros anos da administração, como prefeito (nos dois mandatos para os quais foi eleito), a posição da Câmara de Vereadores, a criação do Ginásio, Banco do Brasil e sobre o Padre Zuzinha.

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Por Edson Tavares

Por Emanoel Glicério |

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