No escurinho do cinema...

A sétima arte sempre encantou multidões, desde o surgimento, com os irmãos franceses Lumière, no final do século XIX, e até hoje, mesmo com todas as transformações, o cinema continua sendo um grande atrativo, exercendo um fascínio incrível sobre as pessoas.

Esta semana, fui ao cinema, ver a Era do Gelo 3, e, enquanto a sessão não começava, a mente foi divagando pelos velhos tempos do Cine Bandeirante.

Inaugurado, salvo engano, em 1966, quando comecei a me entender por gente, o "cinema de Joel" já era o point da juventude santacruzense, nos anos 70.

Antes da construção do Banco do Brasil, havia uma serraria (na esquina, ao lado da Alvorada Lanches) que espalhava toros de madeira por todo o largo, que sequer era calçado. Era por onde as pessoas se distribuíam, sentavam, conversavam, faziam as famosas “malas”, no final dos anos 60.
Com a construção do Banco e o calçamento, a calçada que circunda a instituição financeira passou a ser o passeio das jovens e dos jovens, a se paquerarem. Circulavam o banco várias e várias vezes. Quando "descolavam", sentavam em uns detalhes do prédio, a que chamávamos de "casinha de pombo" e era aquela maravilha (a criançada ficávamos espiando, disfarçadamente, os “arrulhos” amorosos, os beijos e abraços dos “pombinhos), tudo ao som das músicas da época (Jovem Guarda), que tocavam nos alto-falantes do cinema, e que eram ouvidas por toda a redondeza.

Isso tudo antes de começar o filme, cuja sessão iniciava sempre às 20 horas, como era amplamente divulgado, pelas ruas da cidade, no carro de som do cinema, na voz anasalada de Palaquê.

Para mim, era um mundo mágico. Antes de entrar na sala de exibição, uma volta pelos cartazes das próximas atrações. Guardo na memória o tom arrastado da voz de Joel Moraes, ralhando com as crianças, que ficavam correndo no cinema. Inesquecíveis os toques gradativamente mais graves e altos, do sino, que anunciavam o início da sessão [anos depois fiquei sabendo que eram uma versão eletrônica das “Batidas de Molière], e provocavam um verdadeiro "frisson" na procura dos lugares.

Quando o filme era distribuído pela Condor e o pássaro aparecia no pico de uma montanha dos Andes, toda a platéia começava a gritar "Xô, xô!", até que o condor voava e se transformava na palavra "apresenta" [ouvi dizer que certa vez conseguiram capturar um urubu na Volta do Serrote, colocar no saco e entrar com o bicho no cinema, que foi solto na platéia, nesse momento].

Fui muitas vezes, levado por meu pai, ao cinema, onde ele sempre comprava balas de amendoim e mel de abelha - até hoje, quando chupo uma dessas balas, é como se estivesse no cine Bandeirante.

Na segunda-feira, a sessão era dupla. O primeiro filme era inédito, e o segundo era o filme do domingo.
O tempo foi passando, a cidade mudando, o cinema acabou fechando as portas, e o prédio transformado em hospedaria (na qual, inclusive, morei alguns meses, quando voltei a Santa Cruz, como professor, na década de 80) e retalhado em várias lojas. Hoje funciona um supermercado, onde, trinta anos atrás, era um delicioso ponto de encontro da juventude santacruzense...

A foto que ilustra esta matéria flagra a construção do prédio: sobre o monte de areia, Joel e os filhos Joelzinho e Gorete; Ana, sua outra filha, também está na foto.
Por Edson Tavares

Por Emanoel Glicério |

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