A HISTÓRIA “QUASE-NÃO-OFICIAL” DO TEATRO MUNICIPAL

ou

UMA COMÉDIA SEM A MENOR GRAÇA


4º Ato: “Morrer na praia”

Concluindo o relato acerca da construção do teatro municipal de Santa Cruz do Capibaribe, resta-nos falar sobre o equipamento do espaço cênico. Começa, então, outra novela. Fizemos vários orçamentos para equipar o teatro, elaboramos projetos para a Funarte, procuramos novamente os técnicos de teatro para estabelecer o mínimo necessário para funcionamento, a fim de inaugurarmos o Teatro Municipal ainda naquela administração.

Colocamos nas mãos do prefeito o projeto mínimo, capaz de fazer funcionar, ainda que precariamente, aquela casa de espetáculos. Chegamos a preparar, inclusive, uma peça para a grande inauguração – seria um trecho de um espetáculo que recebeu originalmente o nome de “O Beco”, e que tratava dos tipos populares de Santa Cruz do Capibaribe, transeuntes dos becos que davam acesso à Rua Grande, nos dias de feira.

Mas novamente rolam os dados na esfera inatingível aos escalões menores e o prefeito alega que não havia condições financeiras para equipar minimamente o teatro. Além do mais, estava-se em plena campanha eleitoral, em que se pretendia fazer o sucessor, Padre Bianchi, e todas as energias voltavam-se para esse empreendimento. Conclusão: a despeito dos inúmeros apelos que fizemos, não conseguimos verba alguma para equipar e inaugurar o Teatro Municipal.

Foi nesse momento que experimentei uma das maiores decepções de minha vida pública: depois de tanta luta, tanto desgaste, tanta dor de cabeça e discussões, iríamos “morrer na praia”. Não teríamos o teatro inaugurado, nem expectativas de uso.

Como era esperado, Bianchi Xavier foi derrotado nas urnas e Ernando Silvestre assumiu o Palácio Municipal. Como era também previsto, o projeto do teatro municipal foi literalmente esquecido, o prédio foi abandonado e voltou a ser usado como depósito de material de festas, tal como o prédio da 29 de Dezembro.

Ao apagar das luzes da gestão Ernando, a Secretária de Educação, Avanísia Souza conseguiu, finalmente, equipar o teatro e inaugurá-lo, concretizando, desta maneira, o sonho que acalentávamos desde mais de duas décadas atrás. Tudo bem, que o movimento teatral da cidade já não tinha mais a fibra de antes, muitos atores e técnicos haviam abandonado as artes cênicas, ou viajado para outras plagas... Mas uma nova geração foi se formando, ainda com o apoio de alguns artistas veteranos, e conseguiram utilizar o Teatro Municipal como a casa de espetáculos com a qual sonhamos a vida inteira. Um espaço aconchegante, confortável, climatizado, funcional.

Anos depois, fiquei sabendo que o prédio do teatro estava sendo utilizado para “n” coisas, desde atos religiosos a recepções de “socialites”, e que sua principal função, a de apresentação teatral, estava ficando em segundo plano; o teatro estava ficando sem espaço no seu próprio espaço. Mas soube também que, ultimamente, foi normatizado que o espaço seria usado preferencialmente para apresentações teatrais (o que, diga-se passagem, me parece ser a maior das obviedades: um teatro deve ser usado para apresentações teatrais...)

Hoje, quando vou a Santa Cruz do Capibaribe, ver uma ou outra peça, pego-me contemplando aquelas paredes, aquele palco, aquela estrutura e, enquanto o espetáculo não começa, passa pela minha mente outro espetáculo, em cartaz há mais de 25 anos, e que esta geração de jovens que lotam o auditório do teatro municipal nem imaginam quanto foi sofrido e trabalhoso...

Mas, finalmente, ao terceiro toque de Molière, as cortinas se abrem, começa a peça, e renova-se, em mim, a certeza de que valeu a pena a luta, e o fato de que poderia ter saído melhor não invalida o equipamento cênico que temos, e, principalmente, rejuvenesce a esperança de que nunca mais ficaremos com os braços doloridos de carregar carteiras escolares, embora nunca os devamos cruzar diante da necessidade de constantes melhoras técnicas no Teatro Municipal.

Por: Edson Tavares

Por Emanoel Glicério |

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