A HISTÓRIA “QUASE-NÃO-OFICIAL” DO TEATRO MUNICIPAL

ou

UMA COMÉDIA SEM A MENOR GRAÇA


3º ato: Uma construção “sui generis”

Depois de novo hiato de tempo, o assunto do Teatro Municipal volta à baila, agora com um dado novo: transformar um depósito de material de festas que a prefeitura tinha na Av. 29 de Dezembro em casa de espetáculos. O problema alegado que inviabilizava o projeto: falta de verba para a transformação do prédio em espaço cênico.

É aí que entra em cena o comerciante Alírio Tibúrcio, cujo supermercado ficava vizinho ao depósito citado, e que sempre teve vontade de expandir seu estabelecimento até a outra esquina. Detalhe importante: Alírio foi, segundo informações de “malas”, um dos mais substanciosos financiadores de campanha do prefeito eleito, portanto tinha certa influência.

Logo fiquei sabendo da “brilhante idéia” que havia surgido, em uma dessas conversas “não-oficiais”: o comerciante tinha um terreno em que criava algumas cabeças de gado, por trás do clube Ypiranga, e propunha à prefeitura construir um prédio para o teatro, em permuta pelo depósito da 29 de Dezembro. Era uma solução perfeita, ainda que burocraticamente complicada.

Entra, então, em ação, aquele que foi o responsável pela tramitação e fluência de todo o processo envolvendo essa negociação: Heleno Aragão (conhecido por “Bode”), profundo conhecedor da burocracia municipal, pois que era suporte técnico de administrações municipais desde os tempos do Padre Zuzinha. Foi através das informações de “Bode” que pude acompanhar os lances do processo.

A primeira coisa a se fazer foi uma consulta ao Tribunal de Contas, para se ter certeza de como se daria a negociação. Depois de alguns meses de espera, chegou a resposta autorizando o processo, nos seguintes termos: como a prefeitura não poderia permutar um bem patrimonial real por uma promessa de construção, seria necessário que Alírio primeiro construísse o prédio para, em seguida, dar-se início às avaliações pertinentes à aludida permuta. O dono do supermercado concordou de imediato (fiquei pensando com meus botões: para ele, um comerciante experiente, ter concordado em construir um prédio alheio a seus interesses, sem saber se seria aprovada a negociação ou não, para ele ter concordado de imediato é porque já rolava algum tipo de certeza, naquele “nível não-oficial”, em esfera reservada... mas tudo bem, o importante é que havia uma possibilidade de termos o teatro construído).

Desta forma, criou-se uma situação inusitada: o engenheiro e arquiteto responsáveis pela obra seriam pagos por Alírio; logo, a ele é que deviam satisfações. Acontece que Tibúrcio não tinha, entre seus pendores, como ele mesmo reconhecia, conhecimentos técnicos de teatro. Fomos então, convocados a nos reunir com os responsáveis pela construção, para elaborarmos juntos o projeto. Depois de alguns desencontros, finalmente conseguimos nos reunir, não mais para a elaboração conjunta, pois o projeto já estava pronto, mas para avaliar algumas questões. Naturalmente, aconteceram algumas rusgas, uma vez que engenheiro e arquiteto diziam que o dono da obra recomendara comedimento nos gastos, uma vez que havia a segunda construção a fazer, em seguida.

Assim mesmo, aos trancos e “barracos”, a construção teve início, a qual procurei acompanhar de mais perto que me era possível. Trouxemos vários dos melhores técnicos teatrais de Recife e Caruaru (entre eles Rubem Rocha Filho, José Manoel, Didha Pereira, Prazeres Barbosa, Francisco Torres, o saudoso Geraldo Barros, Romildo Moreira, além de uma técnica em iluminação que era a mais requisitada do Nordeste), cercando-nos de opiniões altamente conceituadas acerca do funcionamento da casa de espetáculo em construção.

Acompanhando a obra, tive uma série de problemas com os responsáveis pela construção: primeiro, a altura do teto do palco não era condizente com o uso que se pretendia, pois precisava de um espaço superior que garantisse a manipulação de cenários para o alto; brigamos e perdemos a quebra-de-braço, sob a alegação de que o “dono” da construção não autorizara tal modificação, pois implicaria mais gastos.

Depois, ainda no palco, outra discussão: é um conhecimento elementar que todo palco de teatro é feito em madeira, para garantir a segurança dos artistas e fixação de cenário; relutei o quanto pude ao saber que o piso do palco seria em granito (!), mas fui novamente vencido (aliás, hoje o piso está afundando, tornando-se uma aventura a encenação de peças que exijam deslocamentos rápidos e coreografia mais rebuscada).

Mas os dois maiores absurdos conceptuais da construção passo a relatar agora: construíram uma mesma porta para entrada de material do exterior e para LIGAR O CAMARIM AO PALCO (!!!), ou seja, na prática, o ator saía do camarim para o palco (e vice-versa) passando pelo exterior do teatro, à vista de quem estivesse passando na rua, ao lado do prédio. Reclamei o quanto pude, mas não consegui sucesso, a não ser a construção de um muro, que “camuflava” o problema.

Entretanto, o pior vem agora: a construção seguia em ritmo acelerado e eu não conseguia identificar onde seria colocada a cabine de som e a de iluminação; numa conversa (mais uma) com o engenheiro, veio-me a “brilhante” informação: NÃO ESTAVAM PREVISTAS AS CABINES TÉCNICAS, no projeto. Ainda sugeriu, o “gênio”, que a iluminação e a sonoplastia dos espetáculos poderiam ser feitas a partir de uma “mesinha” (!!!), colocada ao lado do palco.

Aí não consegui me conter. Esperneei, bufei, exercitei toda a chatice de minha antipatia, procurei Alírio como dono do prédio e o prefeito como futuro administrador, expus o absurdo que se pretendia fazer, e, finalmente, diante dos protestos e após um desgaste terrível, concordou-se em construir UMA cabine, em que seriam colocados controle de som e de iluminação – é o que foi feito e o que temos hoje, no teatro.

Construção pronta, negociação de permuta retomada e concluída, Alírio tomou posse do antigo depósito da prefeitura e pôde, finalmente, expandir seu supermercado. E nós tínhamos um prédio para um teatro; pequeno, mas bem melhor do que o sofrimento de antes. A vereadora Zilda Morais não perdeu tempo e já conseguiu aprovar um requerimento nomeando o teatro Emílio Eduardo, à época recentemente falecido em plena juventude (o que causou grande comoção na cidade), mas que não tinha envolvimento com o movimento teatral da cidade; tanto é que o nome nem “pegou”, e o equipamento é conhecido até hoje simplesmente como “Teatro Municipal”.

Faltava agora só equipar a casa de espetáculo. Mas isso já é outro ato dessa comédia, com o qual pretendo encerrar essa história.

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Por Edson Tavares

Por Emanoel Glicério |

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