O padre, de moletas, recuperando-se de uma tentativa de homicídio


Padre Zuzinha, em celebração litúrgica, vendo-se ainda o sacristão Amaro Zuza. por trás do padre
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Esta semana, a cidade lembra-se de seu pároco mais conhecido, falecido há 26 anos. José Pereira de Assunção, conhecido desde menino como Zuzinha, nasceu no dia 7 de abril de 1905, no Sítio Várzea Grande, de Taquaritinga do Norte; era filho do Prof, Domingos Pereira e de Maria José de Assunção.


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Estudou inicialmente no Seminário de Olinda, depois no de Nazaré da Mata (diocese a que pertencia Taquaritinga), onde o Bispo Dom Ricardo de Castro Vilela, em 1933, diante da escassez de sacerdotes, ordenou vários seminaristas que tinham apenas concluído o curso de Filosofia Escolástica, faltando o Seminário Maior; entre eles, estava Zuzinha.


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Recém-ordenado, Zuzinha foi encaminhado à paróquia de Surubim, para atuar como vigário coadjutor, depois sucessivamente para Goiana, São Vicente Férrer, Macaparana e Orobó. Em 1938, veio para Santa Cruz do Capibaribe, afastando-se pouco depois, para voltar em definitivo em 1946.


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Aqui, o padre em pouco tempo granjeou a simpatia dos fiéis, principalmente dos mais pobres, por uma de suas características mais marcantes: sua extrema caridade, por muitos criticada como exagerado paternalismo. E, de fato, não são poucas as histórias de fatos em que ele preferia dormir no chão, sobre jornais, por ter doado a cama a gente pobre; de ter dado a própria calça que vestia, a um mendigo, na estrada; de doar em esmola todo o dinheiro e comida que tinha. Desde criança era assim, contava seu cunhado, João Deodato de Barros, amigo de infância de Zuzinha: sua mãe não podia lhe mandar comprar alguma coisa, que ele terminava dando o dinheiro ou a mercadoria a algum menino pobre com quem se encontrasse pelo caminho. A verdade é que muita gente se habituou com essa caridade sem limite, e o explorava descaradamente, vivendo praticamente a suas custas.


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Também a sua sombra viveram muitos políticos santacruzenses, que terminaram convencendo-o a entrar na política, aproveitando sua imensa popularidade, mesmo contra a opinião do então Bispo Diocesano Dom Augusto Carvalho. Candidatou-se e foi eleito por duas vezes prefeito de Santa Cruz do Capibaribe, a primeira em 1968 e a segunda em 1976 (na segunda vez, já cansado, deixou a prefeitura nas mãos do vice, Augustinho Rufino de Melo após pouco tempo da posse).


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Como prefeito, tinha grande preocupação com a educação. Foi a seu convite insistente que minha mãe, Maria José Tavares, aceitou o cargo de Secretária de Educação do município. Ele fundou várias escolas: a Trinta e Um de Março, que atualmente traz seu nome, sendo o primeiro diretor e professor de Ensino Religioso; as escolas de Pará e Poço Fundo; instalou o abastecimento d’água na cidade, construiu lavanderia pública, criou o bairro da Nova Santa Cruz e foi o primeiro presidente do Ypiranga Futebol Clube – não necessariamente nessa cronologia.
Vivendo em constante pobreza, visitava os paroquianos a pé ou de carona, até que um grupo de amigos fez uma “vaquinha” e lhe comprou um jeep azul, no qual passou a circular pela paróquia. Muitas vezes, eu criança, o via passar na rua, sempre sorrindo e dando com a mão a todo mundo.
O padre Zuzinha sempre foi muito amigo de minha tia-avó, Tomázia Tavares, a quem recomendava mocinhas que vinham da zona rural, sem qualquer conhecimento na cidade; minha tia Tomázia as acolhia em casa e ensinava-lhe a ler, escrever e fazer flores.


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O padre gostava de fazer uma “fezinha”, no jogo-de-bicho, razão por que meu pai, cambista na época, passava todos os dias na sacristia, para fazer-lhe o jogo e conversar – de vez em quando o padre ganhava uns trocados, que eram imediatamente distribuídos com os pobres que faziam plantão em sua casa.


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Certa vez, em visita ao distrito do Pará, o Padre Zuzinha foi alvejado na perna, com um tiro desferido por uma mulher, Maria Barros. Lembro vagamente dessa história, mas, como eu era criança, nunca soube o real motivo da tentativa de homicídio. Mesmo depois quando eu já “podia saber”, nunca me interessei pelo assunto, razão por que não posso apresentar mais detalhes aqui.


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O que lembro nitidamente é de sua ideologia, justificada pela época de sua formação: era contra as danças modernas, o comportamento desregrado e desrespeitoso entre pais e filhos; exortava os agricultores a plantar algodão e se posicionava contra a má distribuição de terras (várias vezes o ouvia falar, na missa, sobre a reforma agrária, embora eu não entendesse o que significava aquilo); mesmo assim, era um discurso “comportado”, afinal vivíamos em plena ditadura militar e o último presidente que fora contundente ao falar sobre o assunto fora sumariamente deposto, em 1964 – acrescente-se o fato de, politicamente, o padre manter relações com o governo, através do partido a que era filiado, e pelo qual se elegeu prefeito, a ARENA – Aliança Renovadora Nacional.


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Seu discurso religioso girava em torno da defesa da moral e dos bons costumes. Não conheci nenhuma causa social que tenha abraçado, de forma mais efetiva, senão a já aludida desregrada caridade que praticava.


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Era seu companheiro de muitos anos o velho Amaro Zuza, que o acompanhava sempre, servindo-lhe de sacristão, de amigo, de zelador da igreja e da casa paroquial. Eu conheci Amaro Zuza já bem velhinho, andando tropegamente na matriz, com seu surrado terno azul, ameaçando cair a qualquer momento, principalmente quando se dirigia rapidamente ao átrio da torre, para tocar o sino.


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Eu estava na faculdade, naquele 05 de outubro de 1983, quando soube que Zuzinha, internado há alguns dias no Prontocárdio, em Caruaru, por problemas cardíacos nunca tratados, falecera às 19h30min. Tinha 78 anos, 50 dos quais como padre (comemorara seu cinqüentenário sacerdotal naquele ano, com a presença do Bispo Diocesano e muitos padres).


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Naquela noite fui dormir pensando em nosso último encontro, um ano antes, quando estivera na matriz, acompanhado do então seminarista Lula Torres (hoje vereador em Caruaru). O padre olhou-me, procurando reconhecer-me, só conseguindo quando falei que era sobrinho de dona Tomázia; ele então riu e falou: “mas eu te conheci deste ‘tamainho’”.


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O sepultamento aconteceu no dia 6 de outubro. Eu estava lá, fazendo parte de uma multidão que tomava toda a Rua Grande, em frente à matriz, onde se realizava a missa de corpo presente, multidão calculada em 15 mil pessoas pelo Jornal Capibaribe, em número especial da época.
Depois de morto, então, pulularam as “homenagens” – como sempre acontece neste mundo que ignora os vivos e venera os mortos... A Rua Grande passou a se chamar Av. Padre Zuzinha; foi-lhe erigida uma estátua no final da avenida (cuja inauguração equiparou-se a um grande ato político, com a presença do governador Roberto Magalhães e comitiva); a sepultura foi construída como uma réplica da matriz, sendo aberto portão exclusivo, na parede do campo santo; a escola por ele fundada deixava o nefasto nome de Trinta e Um de Março, e passava a ser Escola Padre Zuzinha; o dia de sua morte passou a ser feriado municipal; e até criaram uma medalha com seu nome, com que, anualmente, besuntam de vaidade algumas figuras da sociedade, muito “caras” a cada vereador que as indica.


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O padre José Pereira de Assunção sempre foi motivo de muita discussão, de muita polêmica na cidade, apesar de sua constante mansidão; tinha admiradores e inimigos, principalmente pelo fato de ter se envolvido politicamente. Conheci “cristãos” que não iam à missa porque eram do partido oposto ao do padre, numa clara demonstração de como a política santacruzense sempre foi essa desgraça, que se arrasta até hoje. Algumas vezes ouvi o Padre Zuzinha comentar, em conversa com meu pai, que entrara na política para tentar unir o rebanho dividido; não conseguiu, infelizmente. Morreu sem ver a união com que sonhava; também não a veria ainda hoje, se aqui estivesse.
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Por Edson Tavares

Por Emanoel Glicério |

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