CORINA


Hoje eu gostaria de fazer uma homenagem a uma mulher que esteve muito presente na minha infância, e de quem guardo uma recordação muito carinhosa. Não sei seu sobrenome; conhecíamos apenas por Corina. Ela era lavadeira de roupa lá de casa.

Corina morava, na minha época de criança, numa casinha minúscula, no final da lagoa que foi aterrada para a construção do Parque Florestal. Eu gostava muito de estar na sua casa, mesmo que para isso tivesse que atravessar a lagoa, saltando por montes de lixo, enterrando os pés na lama, me esgueirando pelas margens – eu morava na Rua Agamenon Magalhães, atual Arnaldo Monteiro, no bairro Novo.

A casinha de Corina era muito aconchegante, ainda que bastante humilde. E a alegria, a descontração, o jeito espalhafatoso e sempre risonho, sua inesquecível risada anasalada faziam de Corina uma figura ímpar. Sempre que a visitava, repartia comigo e com meus irmãos o que tivesse à mesa; era um “desaforo” sair de lá sem comer qualquer coisa que fosse.

A lavagem de roupa se dava ora na Lagoa da Manhosa, ora nas pedras perto da Bicuda, a depender das condições da água, que Corina era competente como poucas, no seu labor. Ela saía de casa madrugada ainda, trouxa na cabeça, rumo aos distantes locais de lavagem de roupa, onde se reunia com as demais colegas. Algumas vezes – quando eu conseguia madrugar, acompanhava-a a esses locais, e me deliciava com o passeio, principalmente porque ia na companhia de meus dois grandes amigos de infância – o casal de filhos de Corina.

Amara, a mais nova, tinha o apelido de “Memem”. Muito criança, vivia sempre de chupeta na boca, agarrada a um paninho – ela ficava “tiririca” da vida quando puxávamos o paninho e saíamos correndo, jogando para um e para outro, enquanto ela se esgoelava atrás, num choro sem fim. Mas era uma companheira legal de brincadeiras.

Abdias era meu grande amigo de travessuras; aprontávamos demais, coisas que posso contar e outras que não. Carrinho de lata de doce, seta, pião, bola furada, cavalo de pau... “Tica”, como o chamávamos, era, de fato, um companheirão para todos os folguedos infantis. Das vezes que íamos com a mãe dele para a Manhosa ou para as pedras do Capibaribe, hormônios adolescentes em ebulição, passávamos o tempo espiando as roliças e morenas coxas das lavadeiras e torcendo para flagrar, nalgum descuido, um lance de calcinha – menos da mãe dele, claro.

Várias vezes, Corina ia lavar roupa e deixava os filhos em nossa casa, que tinha um terreno imenso, com um barreiro às margens do qual meu pai plantava uma horta, que era sua terapia e nosso paraíso de brincadeiras – essa casa foi demolida e, em seu lugar, foram construídos dois prédios de apartamentos. Passávamos o dia correndo no gigantesco quintal, trepando nas árvores, felizes em nossos folguedos.

Mudamo-nos para a Rua João Balbino, depois fui morar em Caruaru, deixamos de nos ver... O tempo passou e se encarregou de nos separar. Nunca mais nos encontramos, mas muitas vezes a imagem de Corina e seus dois filhos vem a minha mente, e me dá uma saudade gostosa daquele tempo.

Recentemente, quando eu estava reunindo material para escrever o livro sobre Avani Lopes, Lúcia me levou à casa de Corina, ao lado do Hospital Souza Aragão (não sei se ainda é este o nome). Foi emocionante revê-la, depois de tantos anos. Continua com o mesmo bom humor, a mesma risada, a mesma hospitalidade. E como está na foto que encima esta matéria.

Contou-me que “Tica” morava na zona rural e tomava conta de uma propriedade; e que “Memem”, para meu espanto, já era AVÓ. Enquanto nos despedíamos, uma das filhas de Memem chegava, com o bisneto de Corina, no braço.

Foi um reencontro emocionante, em que procurei, como o protagonista de Dom Casmurro, juntar duas pontas da minha vida; percebi que uma delas, a do passado, está irremediavelmente perdida, e que só vale a pena porque foi, efetivamente, a configuração de momentos inesquecíveis de minha infância/adolescência. Como o corvo de Poe, o “nunca mais” é apavorante, pois deixa uma sensação estranha de algo que se perdeu “na noite dos tempos”.

Obrigado, Corina, pelas oportunidades que tive de ser um garoto feliz ao seu lado. Obrigado, “Tica” e “Memem”, queridos companheiros de brincadeiras – que o tempo se encarregou de transformar em dois desconhecidos. Vocês todos estão bem guardados, no mais fundo de mim, para sempre.

Por Edson Tavares

Por Emanoel Glicério |

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