A MORTE DA PROFESSORA
Por Edson Tavares

Estava eu mergulhado na leitura de “A Invenção do Cotidiano”, o livro mais conhecido de Michel de Certeau, historiador e erudito francês, mais precisamente no capítulo XIV (“O inominável: morrer”), quando a vida resolve me dar um exemplo mais concreto do que seja essa “indesejada das gentes”, como dizia Manuel Bandeira; recebo uma ligação do meu irmão, informando que minha mãe acabara de falecer, em Recife.

Atônito, sem compreender direito se era real ou fruto da leitura que fazia, não demorou muito a constatar a realidade: depois de anos de sofrimento, notadamente nos últimos meses, em que uma queda quebrou-lhe o fêmur e o mal de Alzheimer acentuou a desintegração de uma mente que sempre tive como privilegiada, chegava a termo, enfim, naquela manhã de domingo (no fatídico 11 de setembro), a vida de Maria José Tavares Costa, minha mãe.

Natural de Santa Cruz do Capibaribe, onde cedo perdeu os pais, foi criada e educada por sua tia, Tomázia Tavares, que lhe proporcionou (e às irmãs, Josefa Tavares e Maria do Carmo Tavares, ambas também falecidas) os estudos necessários a se formar como aquilo que ela mais gostava de ser: professora.

Passando pouco tempo em Recife, em Catende e em Toritama, voltou em definitivo para sua terra natal, no início da década de sessenta, sendo uma das primeiras professoras da Escola Luiz Alves da Silva, educandário em que trabalhou durante seus mais de 30 anos de magistério. Gerações de alunos reconhecem sua vocação e seu jeito singular de ensinar, mesclando carinho, disciplina e seriedade. Não há como eu negar isso, já que foi ela que me ensinou a ler, me alfabetizou, me despertou o gosto pela leitura e foi minha professora nos dois primeiros anos escolares.

No início da década de 70, foi convidada pelo prefeito Braz de Lira para ocupar a direção do Órgão Municipal de Educação, que corresponde hoje à Secretaria de Educação, Cultura e Esportes. Atendeu ao convite, realizando um trabalho competente à frente da educação de Santa Cruz do Capibaribe. Acompanhei também esse lado gestor de minha mãe. Estive com ela nas muitas visitas que fazia às escolas da zona urbana e da zona rural, acompanhando de perto o magistério do município. Encerrada sua gestão, voltou para o Luiz Alves, sua verdadeira paixão, seus alunos.

Leitora contumaz, resolveu cursar uma graduação, no final da década de 70. Prestou vestibular de Pedagogia, na Fafica, sendo aprovada. Apesar das dificuldades que significavam o deslocamento diário para Caruaru, deixando a família em casa, onde só chegava por volta da meia-noite, os poucos recursos financeiros, e a cansativa lida escolar, Maria José Tavares cursou os quatro anos, sempre se destacando no curso, formando-se em 1980.

Aposentada, passou a residir em Caruaru, com toda a família, que viu crescer e lhe dar cinco netas e uma bisneta. Mas a morte, “o outro lugar” de que fala Certeau, chegou em sua vida, levando seu amado esposo, João Firmino, em 2006, após sofrida enfermidade. O final de um casamento de 45 anos abalou-a sobremaneira e começou a alquebrar aquela que sempre se mostrara uma mulher guerreira. Decaindo gradativamente, e nos últimos meses de forma mais incisiva, mas sempre assistida de perto pelos filhos, noras, genro e netas, a professora Maria José Tavares parou de sofrer.

Foram 84 anos de uma vida impecável, que me ensinaram a ser homem, professor e gente. Sou imensamente agradecido por ter tido os pais que tive, cuja única tristeza que me deram foi seu (para mim) precoce mergulho na não-existência.

Edson Tavares é professor.

Por Emanoel Glicério | Marcadores: ,

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