A criminalidade brasileira é um fenômeno só visto em países onde as forças coercitivas, ou seja, a polícias, não lidam com o problema de forma sistemática e eficaz, onde o Estado simplesmente abandonou a população a sua própria sorte. Portanto, uma polícia com tal postura não cumpre com o seu papel de proteger a população, nem tampouco de coibir atos criminosos.

Pelo que tenho acompanhado de longe, um dos principais problemas existentes na nossa cidade parece ser, ainda, a falta de pessoal capacitado para investigar crimes. Isto faz com que a polícia sirva apenas de serviço de coleta de corpos quando um assassinato acontece, e esse não é o papel da polícia, al´me de ser um desrespeito para com esses profissionais. Polícia despreparada é uma polícia ineficaz, e uma polícia ineficaz significa população desprotegida.

Fiquei indignado com a brutal morte de Valdir Cabeção, amigo de infância e de muitas partidas de voleibol. Valdir foi morto de forma trágica, mas pelas informações que recebi, o local da morte dele, com certeza, deixou todas as evidências necessárias para uma polícia bem equipada capturar os culpados. Não há crime sem vestígio, mas a própria polícia precisa ter o conhecimento necessário para processar cenas de crime de maneira a não contaminar o local, através da presença de pessoal não necessário e despreparado no local, até que as evidências forenses possam ser colhidas, a cena do crime processada, e só então liberada para a remoção do corpo.

São muitas as fotos que vejo nos blogs da cidade, que mostram cenas de crimes invadidas pela população e pela própria polícia, destruindo assim provas que poderiam ser vitais à resolução do crime.

Com a tecnologia que existe ao dispor da polícia e perícia hoje em dia, é realmente lamentável que apenas em casos de repercussão maior, como nos casos envolvendo políticos, pessoas mais abastadas, etc., é que esses recursos são utilizados. Quando se trata de um homem comum e de bem, nada é feito. Tal atitude, ou falta de atitude, por parte das forças coercitivas e do executivo da cidade mandam uma mensagem alta e clara aos criminosos: BASTA NÃO SER PEGO EM FLAGRANTE E TUDO FICO COM ERA ANTES!

Trabalho com a polícia britânica e com os tribunais de todo o Reino Unido, e fico imaginando porque algo pelo menos parecido não é feito no Brasil. A polícia aqui utiliza-se de inteligência e de todos os recursos possíveis para coibir o crime. Não adianta mostrar presença nas ruas depois que o crime já foi praticado. A polícia britânica também erra, como errou na investida que resultou na morte de Jean Charles de Menezes, mas em comparação às forças brasileiras, dão um verdadeiro show de competência e profissionalismo.

Tive a oportunidade de participar de duas palestras ministradas pelo Ministério do Interior, Polícia Metropolitana e pelo Serviço de Imigração Britânicos a uma turma de comandantes de polícia pernambucanos recém-formados, entre eles o Major Vareda, que comandou a polícia da nossa cidade por muito tempo e que, por seu profissionalismo, foi acolhido como filho da cidade. Os mais de 40 comandantes de polícia brasileiros puderam ouvir e aprender de seus colegas britânicos, bem como de colegas de outros países, já que a comitiva estava em turnê por países da América Latina e da Europa. Na altura, achei que aquele era um passo importantíssimo do Governo brasileiro em possibilitar que os representantes maiores da polícia pernambucana vissem o que países com um índice de criminalidade milhares de vezes inferior à brasileira têm feito para manter os índices dentro de patamares aceitáveis. Fico indignado quando vejo que na prática esse não parece ser o caso.

Acho que está na hora do comando da polícia local cobrar das autoridades competentes os recursos e o pessoal necessário para realizar um serviço à altura do que nossa cidade merece e demanda. De nada adianta eliminar criminosos, como é comum na nossa região, porque eles serão substituídos por outros, e esses por outros. O que deve ser feito é cortar o mal pela raiz e mostrar à criminalidade local e da região que a nossa polícia está equipada para ir atrás de criminosos, não importa onde se escondam.

A quantidade de homens fardados na rua, quer da polícia militar, quer da guarda civil, e câmeras de monitoramento remoto não são sinais de uma cidade segura. Muito já foi feito nesse sentido, mas muito mais ainda é necessário. Os números da criminalidade não nos deixa esquecer do verdadeiro estado de sítio no qual a população local vive, onde parece que temos apenas deveres, mas nenhum direito.

Muitos dizem que violência é sinal de desenvolvimento e crescimento, mas eu discordo. Acho que isso é apenas sinal de um sistema no qual o papel da polícia foi reduzido a servir de band-aid ou paleativo. Está na hora de equipar a nossa polícia com o que de melhor existe para coibir o crime na nossa cidade, e se para isso se torne necessário investimentos em pessoal e equipamento, o novo representante do executivo deverá ser pressionado a correr atrás desses recursos e a bater em quantas portas forem necessária para consegui-los. A população merece e demanda. Apenas palavras bonitas e promessas vazias nunca foram suficientes. Acorda Santa Cruz, senão o bicho pega! Vamos ajudar a polícia local a prestar um serviço ainda melhor à população de Santa Cruz do Capibaribe.

George Balbino (Inglaterra)

Por Emanoel Glicério |

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