Quem atravessa a BR-232, a "espinha dorsal" de Pernambuco, no seu trecho mais movimentado - os 133 quilômetros que ligam o Recife a Caruaru -, pode testemunhar os primeiros passos de um esperado maior avanço no que já é o mais importante polo de confecções do Nordeste. Esses passos são visíveis em Caruaru, numa frente de trabalho para a duplicação da BR-104, 51,4 quilômetros que vão ligar a entrada da PE-160, distrito de Pão de Açúcar, em Taquaritinga do Norte, à entrada da BR-149, em Agrestina. Será, também, a interligação de Pernambuco à Paraíba, via Campina Grande. Uma obra que vai expor ainda mais um dos maiores empreendimentos do Nordeste.

A reportagem Pequenos gigantes do Agreste, publicada recentemente neste jornal, traz de volta as atenções sobre esse empreendimento. É uma exposição a mais desta vitrine do grande polo de confecções do Agreste - e, seguramente, não será a última. Talvez, até, seja mais apropriado ressaltar os exemplos das microrregiões Alto Capibaribe e Vale do Ipojuca, quando entendemos que o Agreste é uma mesorregião pernambucana que abriga 78 municípios e seria extraordinário se todos tivessem a mesma pujança que encontramos hoje naquelas duas microrregiões, referências da economia de nosso Estado.

O polo de confecções nasceu em Caruaru, ramificou-se por Santa Cruz do Capibaribe e Toritama, mas hoje é uma árvore frondosa em 14 municípios que desconhecem o desemprego e produzem 800 milhões de peças por ano. Sem nenhum bairrismo, pode ser visto como um dos maiores exemplos de empreendedorismo no País atualmente. Esses pequenos gigantes do Agreste materializam os objetivos que deram forma e vida à Sudene no início dos anos 60, mas que ficaram atravessados no meio do caminho, como um ideal de economia sustentável não alcançado.

O que isso significa pode ser dimensionado pela chegada do impulso das confecções muito mais além das três cidades que deram os passos iniciais - Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama. Agora é possível ver como essa história com duas décadas de relato já inclui muitos outros cenários e personagens. A exemplo de Santa Maria do Cambucá e Vertentes, no Alto Capibaribe, onde se dá uma interação entre rural e urbano, criando novos corredores de produção, trabalho, renda, onde até pouco tempo atrás só se imaginava uma saída: os caminhos do Sul do País ou da Região Metropolitana do Recife.

São histórias como essas que passam do relato cotidiano, agora através dos mais avançados meios de comunicação social e de instrumentos institucionais, como a Associação dos Confeccionistas de Santa Cruz do Capibaribe, que abre caminhos profissionais para os jovens, através de cursos direcionados para o mercado cada vez mais carente de mão de obra especializada. Os meios acadêmicos universitários de Pernambuco, particularmente na área de administração, acompanham com atenção cada passo dado pelo polo de confecções e começa a ganhar forma uma bibliografia resultante desses estudos, mostrando, entre outras coisas, como se dá uma evolução social nas cidades que fazem parte desse polo.

Como ficou visto na mais recente reportagem deste jornal sobre o desenvolvimento da área que compreende o polo de confecções, estamos diante de um segmento econômico pernambucano e nordestino que responde por 15% da produção de vestuário em todo o País, um desempenho que repercute imediatamente no mercado de trabalho, por ser um dos setores que mais gera empregos. E, surpreendentemente, as cidades pernambucanas envolvidas nesse processo estão sendo capazes de sobreviver e até desconhecer a "síndrome da China" - com seus preços em forma de dumping - que ameaçava com um processo de depressão na economia e na vida dos que fazem esse pequeno mas notável núcleo produtivo.


Editorial do Jornal do Commercio (30/01/2010)

Por Emanoel Glicério |

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