A entrada na Universidade para muitos que dedicaram anos de sua vida nessa busca, chega a ser um sonho realizado, ou pelo menos o início dele. Sentimentos de recompensa pelos dias de dedicação e esforço invadem os recém-chegados a esse universo, que é a academia. Mas além de sentimentos saudáveis como esses, o medo da tão “bem intencionada” recepção que os espera também aflora, e não é para menos, trotes violentos fazem parte do programa de boas vindas de calouros de muitas universidades em todo o país.


Somente esse ano foram divulgados três casos, dois em São Paulo e um em Goiás, nos quais a intenção de prejudicar física e moralmente os “feras”, pôde ser constatada claramente. Atos que demonstram explicitamente a má intenção de quem os proporcionam - os estudantes veteranos.
Os trotes realizados no estado de São Paulo prejudicaram três jovens, um deles foi obrigado a ingerir bebida alcoólica, o que ocasionou um coma alcoólico, outras duas tiveram as pernas e braços queimados depois de serem atingidas por uma mistura de substâncias químicas. Já em Goiás um estudante foi agredido fisicamente por PM’s.

Não há como enxergar vantagem em recepções nas quais os receptores são apenas agredidos e humilhados. O que deveria servir para simbolizar a entrada num “novo mundo”, não traz nenhuma espécie de proveito para os calouros - estes que são obrigados a passar por constrangimentos causados por “brincadeiras” irresponsáveis - muito pelo contrário, ao passar por situações de extrema violência, e perceber que atitudes dessa natureza fazem parte do universo acadêmico (talvez apenas num primeiro momento, ou não), é provável e admissível que surja a grande dúvida: É um ambiente desrespeitoso que freqüentarei durante alguns anos da minha vida?

E embora estas não sejam práticas cotidianas em todas as universidades do Brasil, deve-se admitir que nossas academias não são das mais receptivas, o primeiro contato de um futuro graduando deveria ser o mais impressionante possível, mas de uma maneira positiva, com atitudes passivas e que demonstrassem e incentivassem o estudante a tornar-se um cidadão, e não amedrontá-lo ou forçá-lo a participar de tais atitudes para que assim faça parte do sistema, isso porque nos próximos anos o novato não será mais novato, e possivelmente retribuirá a calorosa recepção a qual foi submetido.

Como em quase toda situação, talvez haja uma luz no final do túnel, e torçamos para que esse caso não seja uma exceção. Ainda que em pequeno número, algumas universidades já estão dando os primeiros passos para uma tomada de postura contrária a de tantas, tomando consciência do quanto seria enriquecedor para os novatos que de inicio, logo num primeiro contato, os novos estudantes participem de atividades que os molde ou pelo menos “prepare o terreno”, para receberem lições de como ser cidadão; a UEPB por exemplo, parece já engatinhar nessa direção, no Campi de Campina Grande, houve trotes que merecem ser explorados e copiados por outras academias, um trote ecológico e cidadão, no qual os recém-chegados participaram de palestras e da arborização de um dos campus, e o outro realizado pelo Departamento de Comunicação Social da mesma instituição, foi um trote social, que levou aos “feras” a participarem de uma gincana, dificultada pelo uso de materiais como bengalas,vendas,muletas, a fim de fazer com que percebessem a dificuldade e também a superação dos portadores de necessidades especiais.

Existem trotes e trotes, se julgamos necessária a presença deles, que pelo menos aprendamos a utilizá-los, que sejam aplicados para uma boa colheita futura e não para o plantio maldoso. Se o antigo dito popular: “a primeira impressão é a que fica”, for levado ao pé da letra, dá para imaginar o julgamento feito pelos estudantes em relação às academias brasileiras.

Por Ana Paula Brito

Por Emanoel Glicério |

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