Centenário de Raimundo Aragão

A eleição de 1968 foi o divisor d’água na política santa-cruzense, até então existia um clima de cordialidade entre vencedor e vencido, inclusive com cumprimentos pessoais entre os adversários políticos no pós imediato eleitoral e na posse.

O grupo político de Raimundo Aragão, seguindo o critério de simplicidade, honradez e determinação política de dar seguimento ao ciclo desenvolvimentista, implementado por Raimundo, escolheu o jovem Gaudêncio Feitosa candidato a prefeito e seu vice o Sr. Francisco Glicério da Silva (Chico de Deda), tendo os adversários convencido o até então apolítico Pe. Zuzinha a se candidatar a prefeito.

Até então, Pe. Zuzinha tinha um perfeito relacionamento com Raimundo Aragão, o qual era vizinho (o Padre era padrinho de sua filha Socorro e tinha um irmão, o Sr. Guilherme casado com uma irmã de Raimundo, Sra. Inês, ambos radicados no Rio de Janeiro, os quais visitamos em 1970 e tendo ele retribuído a visita em 1978, um casal feliz e alegre).

Era o Pe. Zuzinha uma pessoa inteligente, desprovida de qualquer apego às coisas materiais, tudo o que possuía dava aos despossuídos de qualquer espécie, até a batina era desgastada e desbotada pelo tempo. Tinha como estilo de vida a simplicidade e solidariedade, no melhor estilo franciscano.

Aconteceu do Pe. Zuzinha aceitar a candidatura a prefeito, tendo ocorrido à maior movimentação política em termos proporcionais em toda a história de Santa Cruz do Capibaribe. O padre não participava de nenhum movimento político, social e religioso (na época do Concílio Vaticano II, nas cidades de Puebla e Medellin) tendo Dom Helder sido perseguido pela ditadura, sua casa na Rua das Fronteiras, em Recife, foi metralhada, o assassinato de Pe. Henrique em Recife e outros fatos políticos.  

Existia um verdadeiro culto a personalidade, a música dizia: “Quem é que vai ganhar? É o padre”, e ganhou com o maior percentual até hoje na política santa-cruzense. Não existia nenhuma discussão administrativa, somente o personalíssimo.

Após a vitória estrondosa, não souberam comemorar, agrediram com pedradas as casas das principais lideranças, inclusive a casa de Raimundo Aragão, Santa Cruz no outro dia parecia um cenário de pós-guerra, e solicitaram uma auditoria na Prefeitura, a qual foi realizada pelo exército em 1969 (época do período mais duro da ditadura militar). O então auditor militar compareceu à casa de Raimundo Aragão em uma terça-feira ensolarada, mais ou menos às onze horas do dia, Raimundo Aragão estava ausente e aquele pediu que chamasse sua esposa, quando foi rápido e breve: “Vim conhecer um homem sério e honesto, até os centavos bateram”. O que foi um verdadeiro atestado de honradez a Raimundo Aragão.

Mesmo com os fatos desagradáveis da eleição de 1968, através de amigo comum tentou-se uma composição política na eleição de 1972, aceita pelo senhor Braz de Lira e Raimundo Aragão (suas respectivas esposas eram comadres), com chapa única, sendo Braz de Lira prefeito e Severino Aragão vice (Bilino, irmão de Raimundo). Tendo a cúpula do partido adversário rejeitado esta composição (fato político desconhecido pela maioria da população de Santa Cruz do Capibaribe) e que desmonta determinadas teorias. Dia de domingo, em um fim de tarde, Braz de Lira se encaminha em seu Aero Willys cinza, que só saia em raras ocasiões e se dirige a casa de Raimundo, e comunica-lhe que infelizmente o seu partido não aceitou a proposta.

Santa Cruz do Capibaribe na década de 60 do século passado era desprovida de saneamento básico, no governo Paulo Guerra, Raimundo consegue a construção do açude do Machado, época de uma série de obras, incluindo o Hospital da Restauração no Recife, e conseguiu no governo subseqüente do Dr. Nilo Coelho (Raimundo o conheceu ainda estudante de Medicina devido a ele ser caminhoneiro, transportando mercadoria para armazém de seus pais) a adutora, inaugurada em 1969 poucos meses após a saída de Raimundo da prefeitura, tendo Dr. Nilo Coelho ido à sua residência e dito a ele que quem iria inaugurar o sistema de abastecimento d’água em Santa Cruz seria Raimundo por que esta obra lhe pertenceria, o que de fato aconteceu para constrangimento de seus adversários políticos.

Construiu o calçamento das duas principais ruas da cidade e suas interligações, que permanecem intactas. Começou o saneamento com o canal entre a casa paroquial e a casa de Zé Mestre, deixando todo o projeto de saneamento pronto.

Até esta década (1960) os partos eram praticamente todos domiciliares, tendo Raimundo construído à maternidade (hoje transformada em hospital) e trazido o primeiro médico da cidade e especialista em obstetrícia (existiam poucos profissionais médicos nesta época), Dr. Fernando Gouvêa.

Foi Raimundo Aragão amigo e correligionário de três governadores de sua época, Dr. Miguel Arraes, Paulo Guerra e Dr. Nilo Coelho, o que facilitou a realização de diversas obras.

Agradecemos a Emanoel Glicério, do blog Diário da Sulanca, o espaço democrático para o resgate histórico de nossa cidade, acreditando que sua pessoa continue nesta linha de jornalismo (estando alicerçado nas pessoas de seu Amaro e Chico de Deda).

Homenagem especial ao professor Lindolfo Pereira de Lisboa, pessoa de imensurável saber que escreveu o livro Raimundo Aragão: Sua vida, suas obras, do qual transcrevemos alguns textos, devido a sua bela descrição.

Por Marconi Aragão Florêncio, Médico Angiologista/ Cirurgião Vascular

Por Emanoel Glicério | Marcadores:

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